Sáb18042026

Back Início Pensatas Matutando Pense Nisto Sermões Demonstrações Gloriosas da Graça do Evangelho

Demonstrações Gloriosas da Graça do Evangelho

demonstracoes-evangelho"E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemu­nho a todas as gentes, e então virá o fim." (Mt 24.14)

SE alguma vez minha mente sentiu o peso solene dessas palavras do velho e bom patriarca: "Este não é outro lugar senão a Casa de Deus: e esta é a porta dos céus" (Gn 28.17), foi agora. Alguém suporia que tantos ministros e o povo de Deus poriam no coração reunirem-se com tal desígnio glorioso, e Ele não estaria presente? Seguramente que não! Cremos que Ele está em nosso meio. Nem nada menos que sua pre­sença especial coroa nossos trabalhos com sucesso. Que misericórdia vivermos em dias nos quais a promessa do Senhor é, esperamos, notavelmente verificada: "Eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos" (Mt 28.20).

São de importância infinita os assuntos da salvação. A glória de levar almas a Cristo é a maior honra que Deus pode nos conferir. A salvação de uma alma vale mais que mil mundos. Meus queridos irmãos de ministério, que Deus nos encha com os mesmos desejos ardentes que instigavam o coração do apóstolo, quando ele foi constrangido a declarar aos ouvintes gaiatas: "Sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (veja Gl 4.19). E en­quanto vocês se juntam na atividade de enviar o Evangelho a na­ções pagas, que na partida, irmãos amados, desta nossa Jerusalém britânica, vocês sejam cheios do Espírito e do poder do alto a fim de que sejam mil vezes mais bem-sucedidos, não só na promoção do bem entre aqueles com os quais vocês mais imediatamente se preocupam para que sirvam no ministério da Palavra, mas também para a conversão dos pobres pagãos em seu bairro. Que multidões de pagãos e os piores que pagãos, embora sob o nome de cristãos, sejam encontrados em todos os lugares! E por que não esperarmos que tal fogo venha a ser acendido agora, de modo que não só maravilhas sejam feitas entre as nações que não conhecem a Deus, mas que até em nossa terra seja também nossa porção a ser favorecida com um reavivamento extraordinário do poder da religião, "e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do Senhor" (At 3-19).

Que pequenez e insignificância são as marcas distintivas sobre todas as coisas do tempo e do sentimento, quando comparadas a bênçãos como estas! Que proveito têm as coisas temporais em com­paração às eternas? Aqui estão glórias que o mundo nunca pode ob­ter, nem a língua expressar, e não desejo saber os sentimentos de uma mente feliz que, embora totalmente nas agonias da natureza dissoluta e além do poder de dar uma resposta inteligível a qualquer pergunta feita, não obstante, com uma esperança cheia de imortalida­de ainda que nas garras da morte, sentiu tal bem-aventurança cm sua mente quanto constrangeu-o a erguer os braços em triunfo e, com o próprio céu no semblante, a repetir três vezes: "As glórias! As glórias! As glórias!"

Que honra ser feito o instrumento feliz na transmissão de tanta felicidade, em circunstâncias solenes como este homem agonizante sentiu! Enquanto vivemos, que Deus encha nossos corações com es­tas glórias surpreendentes; para que sejam nossa bebida revigorante no momento em que partirmos; e que a misericórdia divina ensine um mundo de pecadores a buscar a redenção!

Não nos envergonhamos do que o mundo chama a irregularidade de nossa conduta. Quando o ardor do zelo apostólico fizer de cada ministro um missionário em seu bairro, e quando, tocado com a ter­nura sagrada da compaixão cristã, ele não puder se contentar em deixar um único pecador, dentro do seu alcance, inconverso a Deus.

Certa pobre pecadora em seus momentos moribundos, pedindo que um menosprezado servo de Jesus Cristo fosse visitá-la antes de morrer, ouviu alguém ridicularizar sua escolha, por ela chamar al­guém de tal caráter metodista, um pregador comum de rua e de cam­po. Despertada com zelo e gratidão a Deus pelo instrumento de sua conversão, ela disse aos que a cercavam: "Deixe que o menosprezem. Eu lhe agradecerei diante dos homens e dos anjos por ele ter saído pelas ruas e becos de nossa cidade para levar a Deus minha alma perdida e errante". Faço uma alusão para encorajá-los, meus irmãos na abençoada obra de pregação de campo, para que sejamos imedi­atos a tempo e fora de tempo, e nos lancemos à obra evangelística. Mas devo seguir o plano projetado do texto — Senhor, ajude-me! A palavra diante de nós nos dá a entender que assim como maravilhas foram feitas pelo Evangelho em eras anteriores, no futuro glórias ain­da maiores serão realizadas. Também em nossos dias "a mão do Se­nhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem o seu ouvi­do, agravado, para não poder ouvir" (Is 59.1). Não, quanto mais vive­mos, a manifestação de glórias ainda maiores devem ser esperadas; porque ainda virá o tempo em que a "terra se encherá do conheci­mento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar" (Hc 2.14). Sim. “os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre" (Ap 11.15). Santos e anjos aguardam com impaciência santa para rasgarem a abóbada do céu na chegada do tempo em que o cântico, mais universalmente do que nunca, será cantado: "Aleluia! Pois já o Senhor, Deus Todo-poderoso, reina. [...] Rei dos Reis e Senhor nos Senhores" (Ap 19-6,16).

Pretendo não apenas mostrar que o Evangelho do Reino foi pre­gado em todas as eras desde a queda do homem, mas notar mais especificamente os derramamentos do Espírito em diferentes eras. sob a manifestação divina da misericórdia ao gênero humano, a fim de que nossos corações sejam pródigos e nossas esperanças estimula­das nesta presente ocasião.

No mesmo instante em que nossos primeiros pais trouxeram o pecado ao mundo pela transgressão, e mal a justiça divina havia pro­nunciado a maldição, foi quando a misericórdia soberana pronunciou a promessa graciosa: a semente da mulher ferirá a cabeça da serpente (veja Gn 3-15). Assim o Evangelho foi pregado pela primeira vez no próprio paraíso. Eles, a quem foi pregado, acreditamos que viveram sob a promessa dada e aguardavam-na com expectativa. Eles até mesmo parecem ter concluído que obtiveram o cumprimento da promessa, quando Eva. ao dar à luz seu primeiro filho — traduzindo a passagem mais literalmente —, exclamou: Eu adquiri um homem, o Senhor".

Podemos chamar isso o primeiro florescer da misericórdia ao ho­mem caído, mas o achamos extremamente limitado a um canal estrei­to ao longo do mundo antediluviano, enquanto tamanhas inundações de iniqüidade disseminavam-se pela face da terra. Isso fez com que o próprio Deus se arrependesse de ter feito o homem, e, por conta disso, o seu coração se doeu (veja Gn 6.6). Somente na família de Noé estavam preservados o conhecimento e temor de Deus. Mas o córrego que começou a fluir desde o mais antigo período de tempo gradualmente foi aumentando e continuando a aumentar como um rio transbordante, até que suas correntes largas e extensas desaguaram no seio do oceano.

Deus separou Abraão e sua família desde cedo para esse propósi­to. A fé do renomado patriarca era forte c clara, concernente à Pessoa e glória de Cristo. A fé é uma graça previdente, pois apesar do tempo decorrido, Abraão "exultou por ver o meu dia [de Jesus], e viu-o, e alegrou-se" (Jo 8.56). Paulo declara que a mesma fé que justificou Abraão justifica os crentes em Jesus de todas as eras; que as bênçãos da mesma salvação também nos serão dadas, se formos abençoados com a mesma fé que nele habitava — o qual é o pai dos crentes. E, com efeito, todas as grandes obras feitas pelos heróis da fé de tempos antigos estão descritas no capítulo décimo primeiro de Hebreus, as quais foram feitas pela fé no Senhor Jesus, pois só Ele as torna aceitá­veis à vista de Deus, pois "sem fé é impossível agradar-lhe" (Hb 11.6).

A seguir, notamos que outros avivamentos se sucederam: Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num, são tidos em alta conta nos registros da Escritura. Embora o pecado afastasse a geração dos seus contemporâneos da Terra Prometida — eles pereceram por increduli­dade no deserto —, nada afetava a vida desses homens de renome ou lhes impedia de possuir a Canaã desejada. Foi grande o avivamento da religião nos seus dias, e muito bem foi feito através deles. Deus estava eminentemente com eles e eles o reconheciam em todos os seus caminhos. Nenhum inimigo cananeu pôde evitar o seu progres­so glorioso; eles eram vencedores, mais do que vencedores, porque criam no seu Deus. E Deus não pode dar a mesma fé preciosa na atual empresa? Quando Deus diz: "Haja luz", está no poder de todo o inferno criar trevas? Quando Ele diz: "Surjam, brilhem", a onipotência não prevalecerá? Nós triunfamos enquanto cremos em Deus. "Se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8.31)

Certa feita, fui tomado por dúvidas com respeito a uma missão aos pagãos. A incredulidade dizia que havia mil dificuldades no cami­nho. Sou grato a Deus que minha alma se ruborizou, quando este texto me foi trazido à mente: "Mesmo destas pedras Deus pode susci­tar filhos a Abraão" (Mt 39). O que há tão inanimado quanto uma pedra? Tivesse a metáfora sido tirada de árvores, ou de qualquer outra parte da criação vegetal, poderíamos ter descoberto a existência de pelo menos vida vegetal; mas que poder pode mandar as pedras viverem senão o poder do Deus vivo?

O tempo nos seria escasso para traçar as mesmas demonstrações divinas da graça, sob a regência de Samuel e na primeira parte do reinado de Saul, e as crescentes glórias que sobrevieram à Igreja de Deus enquanto o cetro estava confiado nas mãos de Davi. Passamos para o tempo de Salomão. A luz refletida provida por aquela dispensação brilhou com seu mais pleno esplendor, mas, como o brilho do pântano que pouco a pouco retira sua luz humilde até que desapareça totalmente e se esconda atrás do sol, assim observaremos que estes avivamentos graciosos gradualmente declinaram, até que surgiu Jesus, o Sol da Justiça, criando o dia da graça do Evangelho e adornando-o com todas as glórias de sua grande salvação.

O reinado de Salomão foi repleto de maravilhas. Contudo, identi­ficamos que a parte de sua história mais pura e sem excessos foi quando o Senhor verdadeiramente estava com ele. Salomão começou seu reinado em comunhão com Deus, e prosperou enquanto mante­ve esta comunhão; seu desejo mais nobre foi construir o Templo. Foi durante esse período que o coração deste soberano esteve completa­mente devotado ao Senhor. Sua sabedoria, riquezas c honras foram dedicadas inteiramente para promover a glória de Deus; com zelo, ele completa o trabalho que Deus havia lhe dado. O Templo deve ser dedicado àquEIe para cujo serviço foi construído. Que dia é este, quando todo o Israel aparece diante do Senhor como uma inumerá­vel multidão! O próprio rei conduz as devoções do povo, e Deus milagrosamente declara sua aprovação da obra solene, enquanto faís­cas de fogo santo descem sobre o sacrifício já preparado para o culto divino, e a glória de Deus enche todo o Templo e constrange o povo a regozijar-se com reverência e temor divino.

Será que podemos supor que a mera manifestação externa e visí­vel da glória de Deus era tudo o que a grande majestade do céu designou para o presente? Claro que não! Ele que é como o fogo de refinador para os corações do povo também estava indubitavelmente operando em seus corações, por sua agência invisível, a fim de que os preparasse para si e depois os levasse à sua glória. Em resumo, isso não parece como o grande Pentecostes da Igreja do Antigo Testamento, semelhante em natureza e efeitos ao que está registrado no Novo Testamento, quando línguas repartidas de fogo pousaram sobre a cabeça dos apóstolos — sinal visível da preparação para o impor­tante ministério, que, mediante sua instrumentalidade, grande graça pousasse no coração de milhares de pessoas para prepará-las para a glória?

Que panoramas abrem-se mais amplamente em nossa mente, quando meditamos sobre as multidões de espíritos glorificados já le­vadas a Deus sob a influência destes diferentes derramamentos do Espírito da graça. Há muito eles chegaram com segurança e estão esperando com alegria santa por aqueles que hoje estão indo e por outros que ainda irão, até que Deus complete o número dos eleitos e termine sua grande obra de salvação.

Agora segue-se uma longa noite. Por espaço de quase setecentos anos lemos nos registros inspirados (excluindo o que se refere no Salmo 44 e em algumas outras passagens), que houve somente mais um reavivamento do poder da fidelidade gloriosa da igreja judaica nos dias da terrível perseguição da religião, e que ocorreu sob o governo de Esdras e Neemias no retorno de Israel do cativeiro babilônico. Aprofundemo-nos um pouco mais na investigação da gló­ria desse avivamento. Através de relacionamentos ilícitos o povo se contaminara quando cativo numa terra paga, e mesmo depois quan­do voltou do cativeiro. Essas mulheres, pela ordem de Deus, tinham de ser renunciadas, e não obstante, o que é mais caro à natureza que a esposa da afeição de um homem? Mas Esdras, o reformador santo, permanecia firme diante do povo. A ordem era explícita: esposas tomadas ilegitimamente deviam ser rejeitadas; e eles obedeceram ao que a natureza chamaria de severa injunção do Senhor.

De tudo que nos seja querido, que nosso Senhor e Deus seja mais querido ainda. Cada vez mais querido, dia a dia! Que Cristo encontre nesta presente obra os que podem abandonar casas, terras, irmãos, irmãs, maridos, esposas e tudo por sua causa! E por que alguém recusaria abandonar coisas tão ínfimas em favor dEle, que abando­nou o céu, a glória e não escondeu a face da vergonha e da cusparada. e no fim entregou sua vida para nos resgatar do inferno que o pecado muito justamente merece, para que Ele nos fizesse participantes com Ele da bem-aventurança na glória eterna? Farei mais algumas observações sobre este último reavivamento da religião antes da vinda de nosso Senhor. A Palavra de Deus foi dada novamente à advertência pública. Esdras, o escríba, ficou num púlpito de madeira desde o amanhecer até ao meio-dia. Durante seis horas corridas, ele leu e expôs a Palavra de Deus, ajudado por doze dos principais de Israel, seis postados de um lado e seis do outro. "E leram o livro, na Lei de Deus, e declarando e explicando o sentido, faziam que, lendo, se entendesse" (Ne 8.8). Eles não ficaram cansados com a duração do sermão; não, uma congregação plangente não se afasta rapidamente da Palavra de Deus. Era evidência forte da parte deles que Deus estava com eles de verdade, que seus corações estavam derretidos diante do Senhor e seus olhos eram fonte de lágrimas.

Que visão revigorante nos seria, meus irmãos, se esse fosse o estado de nossas congregações e manifestasse tal ternura de cora­ção c tal prontidão em imediatamente obedecer tudo o que ouviam da Palavra sagrada da verdade! Tenho certeza de que nenhuma vi­são c tão gloriosa quanto a presença de Deus numa congregação de adoradores; nem nada tão animador ao coração de um ministro como quando percebe que a palavra que ele prega entra no coração dos ouvintes, com "demonstração do Espírito e de poder" (1 Co 2.4). Depois desse período até a vinda de Cristo, trevas espessas cobri­ram a maior parte da terra. A religião parecia estar afundada em formalidade, ao mesmo tempo que as instituições de Deus estavam miseravelmente misturadas com invenções de homens. O espírito de profecia foi quase que totalmente retirado; nenhum reformador zeloso fez suas aparições, nem houve indicação de pessoas lamen-tando-se de seu estado desolado ou almejando a volta das miseri­córdias do Senhor.

Observamos que o momento mais escuro em toda a noite é o momento que precede o primeiro raiar do dia. Bendito seja Deus, iremos agora contemplar a glória daquele dia luminoso criada pela presença daquEle que é "o resplendor da sua glória [do Pai], e a expressa imagem da sua pessoa'' (Hb 1.3).

Mas há algo no progresso desta luz que exige nossa atenção. Encontramos algumas maravilhosas agitações de consciência (e é bom quando Deus põe a consciência a trabalhar) sob a pregação de João Batista. Seu aparecimento foi sem sofisticação, mas sua palavra, poderosa: sua função era "preparar o caminho do Senhor". Se, porém, suas palavras pareciam ter apenas um efeito passageiro na mente dos que o ouviam, não se pode deixar de supor que quando o Filho de Deus começou a pregar, maravilhas realmente foram feitas e que nem um ouvinte resistiu quando o Jeová encarnado entregou sua própria palavra. Mas o que foi realizado pela pregação de nosso Senhor? Sua palavra tinha autoridade e os ouvintes maravilhados foram obrigados a reconhecer: "Nunca homem algum falou assim como este homem" (Jo 7.46). Apesar de tudo isso e embora fosse obrigado a tomar as montanhas por seu púlpito e andar de aldeia em aldeia e de cidade em cidade pregando o Evangelho do Reino, depois da crucificação não encontramos mais que cento e vinte pessoas reunidas num cenáculo por medo dos judeus. Onde estavam os milhares que acom­panhavam o ministério de João Batista? Onde estavam as multidões que seguiam nosso Senhor e foram alimentadas por seus milagres? O poder glorioso ainda não fora revelado, o qual faz eficazmente a obra. "O Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado" (Jo 7.39). Ele primeiramente teve de "aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo" (Hb 9.26).

Não era certo que a bênção fosse concedida até que a maldição fosse removida, mas assim que foi feita a grande obra, quando Jesus havia ascendido ao Reino divino, de acordo com a palavra gloriosa: "Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eter­nas, e entrará o Rei da Glória" (SI 24.7); quando Ele tinha terminado suas conquistas e "[subido] ao alto, [e levado] cativo o cativeiro", en­tão chegou o tempo abençoado em que Ele "deu dons aos homens" (Ef 4.8), até aos rebeldes, e veio e habitou entre eles. Assim, tendo preparado as mansões para o seu povo, Ele envia seu Espírito para preparar o povo para ali entrar. As glórias desse dia sagrado! "Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens" (Ap 21.3). De acordo com a direção de nosso Senhor, os discípulos esperaram em Jerusalém pelo cumprimento da promessa, e vejam! Ele vem, suas mentes estão ilu­minadas para entender as Escrituras. Seus corações estão inflamados e eles pregam a Palavra com fidelidade e poder. Antes, nem os tro­vões da pregação de João Batista no deserto, nem ainda as palavras de graça que saíram dos lábios do próprio Jesus Cristo puderam efe­tivamente impressionar a mente de quase ninguém. Mas como a pregação de um grupo humilde de pescadores iletrados amoleceu o co­ração inflexível dos assassinos de Cristo e os trouxe aos milhares para se submeterem à sua justa e misericordiosa autoridade.

No primeiro dia, logo após o Dia de Pentecostes, ouvimos falar de três mil pessoas; em outro momento, ouvimos o número subir para cinco mil; depois, "a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais" (At 5.14); e mais adian­te, "se multiplicava muito o número dos discípulos"; ef o que era a maior maravilha de todas, "grande parte dos sacerdotes obedecia à fé" (At 6.7). Ouvimos de aldeias, vilas, cidades, países inteiros, que de imediato foram subjugados ao Senhor Jesus, e assim "a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia" (At 19-20). Esse foi o tempo em que "nasceria uma nação de uma só vez? Mas Sião esteve de parto e já deu à luz seus filhos" (Is 66.8). Que poder saía junto com a Palavra! Os que ouviram sentiram-se imediatamente tocados no co­ração. Seu clamor era direto: "Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?", e a resposta, tão diretamente dada, era: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa" (At 16.30,31). Como é que, supomos, o decoro da adoração religiosa foi interrompido dessa forma? Mas bendita interrupção, quando o próprio Deus ope­rou de modo tão glorioso e muitas almas foram levadas à sujeição divina da cruz de Cristo! Que Deus nos envie tais interrupções bendi­tas em todas as nossas congregações! São todas gloriosas!

Alguém pode perguntar o que foi feito das multidões que acom­panhavam o ministério de nosso Senhor e de João Batista, seu arauto. Admira-me que muitos dos que, tendo hoje suas crenças reavivadas, encontrar-se-iam entre os milhares felizes que receberam a dispensação do Evangelho. A semente foi semeada primeiramente por João Batista e por nosso Senhor glorioso, e depois de ter sido regada pela descida do Espírito Santo, brotou para a glória de Deus. Que incentivo para todo ministro sincero a fim de que sejam diligentes na obra! Convic­ções ocultas podem ficar muito tempo no coração antes que ocorra uma conversão completa a Deus. 'Lança o teu pão sobre as águas, porque, depois de muitos dias, o acharás" (Ec 11.1). Colheremos se não desfalecermos.

Muitas vezes quando estou engajado na pregação, e talvez tam­bém no árduo trabalho da pregação pelas mas, quando penso que a cidade inteira estava amortecida em transgressões e pecados, alguns poucos são encontrados e, permitam a expressão clara, eu os deixo como "pés-de-meia". Eu os visito novamente, e o número logo subiu de modo que os poucos se tornaram em milhares.

Que evidência notável é dada por todos estes reavivamentos de que a obra na qual estamos engajados é, realmente, a obra de Deus: "Não por força, nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Se­nhor dos Exércitos" (Zc 4.6). Para que foi especificamente a doutrina no grande reavivamento do Dia de Pentecostes? A pregação simples e clara da cruz de Cristo. E quem foram os instrumentos? Um grupo de pescadores comuns e iletrados. Mil vezes melhor ter a simplicidade de um Pedro do que a eloqüência de um Longino, se formos senão úteis à alma de nossos semelhantes. Essa pregação sempre é a melhor e que mais adequadamente corresponde ao seu propósito. Prossiga-mos, então, pregando — como está expresso no texto — ''o Evange­lho do Reino", e também com simplicidade e piedosa sinceridade, não com sabedoria carnal, e o que tem sido feito será feito. Deus sempre defenderá sua própria verdade, e se Ele é por nós, quem será contra nós? Pregar o Evangelho do Reino representa toda a obra. Eu odeio o orgulho dos que tentam pôr de lado esta dispensação glorio­sa e sempre procuram estabelecer o que chamam de faculdades da razão, vangloriando-se das coisas grandiosas que podem fazer. Tives­sem eles um pouco mais da mesma faculdade que insinuam tão abun­dantemente possuir, não se exporiam por meio de tais afirmações, pois o que a razão pode fazer quando está sob a influência da nature­za corrompida? Não, dizem eles, é a paixão e o apetite, não a razão, que governam o homem. Mas se a paixão e o apetite prevalecem sobre a compreensão humana, de forma que o bem é evitado como o mal e o mal buscado como o bem, e estes abastecem nossa capacida­de racional com seus dados, podemos facilmente concluir qual será a conduta e a escolha. Não, dizem eles, está se dizendo que um bêbedo age de acordo com a razão? Certamente que não; mas ele age de acordo com a sua razão; e um homem num ato violento de paixão age de acordo com razão? Segundo o que ele naquele instante chama de razão, ele certamente age. E o bêbedo e o apaixonado lhe darão mil razoes pela — como eles o chamam — conduta que têm; e, por mais errada que seja a razão, é razão para eles. Por mais erroneamente que sejam guiados, contudo a razão lhes serviu de guia; e não é provável que um guia errado conduzirá um homem reto. Em resumo, a razão de cada um o impulsiona a buscar a felicidade. Enquanto a mente carnal supõe que há felicidade a ser obtida na satisfação da concupiscência e da paixão, a razão guia o caminho. Em suma, a razão saudável nunca pode ser implantada, a não ser pela verdadeira religião.

O fato se prova por si mesmo. Onde estão os convertidos desses jactanciosos pregadores racionais? A despeito de todas as suas preten­sões à sabedoria, eles não podem apresentar uma única amostra de alma preciosa que tenha sido convertida do pecado para Deus.

Apresento agora o caráter do grande Whitefield. Espero que vocês não se envergonhem de minha menção ao seu nome neste assunto, pois de fato eu não me envergonho. Deus me deu uma mente muito ampla e a libera de todas as miseráveis redes finas da polidez. Ele não reconhece partido, sua glória era pregar o Evangelho a toda criatura; sua alma detestava o fanatismo; e, como um segundo Sansão. ele abalou os principais pilares de sustentação dos valores da sociedade para que vocês e eu, meus irmãos, nos regozijássemos por ela tremer ate a fundação, e vivêssemos em esperança diária a fim de que nossa alegria fosse completa.

Não direi: Agradeço ao Diabo por qualquer coisa; mas direi: Agra­deço a Deus por essa providência permissiva por meio da qual o grande homem, Whitefield, sendo expulso das igrejas, estimou seu dever de pregar livremente. Seu primeiro esforço foi entre os pobres trabalhadores das minas de carvão de Kingswood. Eu desafio qual­quer missionário na terra a achar lugar mais escuro ou visitar povo mais inculto. Ele convocou estas pessoas dos buracos e covas da terra e lhes pregou "a conversão a Deus e a fé cm nosso Senhor Jesus Cristo" (At 20.21). E foi visão adorável ver o efeito glorioso. Olhos antes desacostumados a chorar agora começam a verter lágrimas de arrependimento para a vida, fazendo surgir pequenos riscos brancos nos rostos enegrecidos, que se voltam para o céu e oram pedindo misericórdia e perdão. Joelhos antes desabituados a orar agora estão dobrados em devoção ardente na presença de Deus; e suas vidas bem e sabiamente reguladas pelo poder da graça que fizera tais mara­vilhas em seus corações. Agora prestem atenção ao que estes filhos fastidiosos de orgulho e presunção tinham a dizer nesta ocasião: Cer­tamente, Whitefield fez o bem entre estas pessoas simples. Não lhes agradecemos pelo elogio, visto ter sido feito com tamanha graça vil e nociva; maior panegírico não pode ser expresso. Geralmente supo­mos que ele é o melhor médico, que cura as doenças mais desesperadoras. E também deveríamos supor que ele é o melhor mi­nistro, apesar dos termos convenientes de metodista e entusiasta, que curam as doenças da mente em seu estado mais desesperador.

Vejamos como estes racionalistas em religião (como eles humilde­mente desejam ser reputados) teriam a probabilidade de serem bem-sucedidos em ocasião semelhante. Que eles procurem outra mina de carvão de igual descrição; lã, tomem um de seus bem-compostos discur­sos estridentes e leiam entre a multidão. De boa vontade e com alegria eu cuidaria dos tamboretes em que se sentam para ver que tipo de papel eles representariam cm seus esforços de reformar. Odeio tal orgulho tolo, que é melhor corrigido pelo açoite do ridículo e desprezo.

Mas parte de nosso plano ainda deve ser considerada. Traçar o que foi feito desde os apóstolos, as horas do dia não nos permitem, e os sucessos de data mais recente já lhes foram bem apresentados. Temos de nos apoiar nas promessas e profecias da Palavra de Deus. com a glória que será revelada. O próprio texto dá bendito incentivo a nossas expectativas: "Este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim'' (Mt 24.14). E o que ainda não esperamos, quando o próprio Senhor disse ao seu Filho amado: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança e os confins da terra por tua possessão" (Sl 2.8).

Nosso desígnio é o mesmo: não importa o nome do barco que trans­porta os pobres pecadores cercados de trevas para a terra da luz do Evangelho e liberdade, contanto que o trabalho santo seja realizado. Odeio o fanatismo ferrenhamente, e enquanto tantos ministros do Evan­gelho de denominações diferentes se reúnem para o mesmo propósito, ainda espero viver para ver essas divisões não mais subsistirem para dividir os cristãos. Enquanto cada um de nós serve a Deus em sua pró­pria denominação, por que não podemos nos amar como irmãos?

 

Que nomes, seitas e partidos caiam,

E Jesus Cristo seja tudo em todos.

 

Eu confesso, na simplicidade do meu coração, que nunca projetei nesta ocasião solene algumas expressões que saíram de meus lábios. Estou certo de que sua paciência e sinceridade os instruirá a perdoar, mas temos de ser sérios, sérios de verdade, enquanto concluímos este sermão com algumas observações sobre qual deve ser o caráter dos missionários.

E que tipo de pessoas devem ser estas, em toda convivência santa e santidade! Quanto estão cheios dessa mentalidade divina e espiritu­al que os eleva tão acima do mundo, como se nem tivessem uma existência nele! Que zelo santo e ardente pela salvação das almas! Que sabedoria insigne para conduzir tal zelo! Que pureza de conhe­cimento para lidar com aqueles cujo gosto profundamente arraigado por suas antigas superstições lhes fará observar com olhos ciumentos em cada tentação para declarar entre eles a verdade como está em Jesus!

Não devem nem sua paciência, mansidão e simplicidade pueril ser menos eminentes que seu zelo. Eles têm de ganhar por amor e vencer pela perseverança santa; não têm de ser como alguns missionários que supõem que devem ser enviados numa viagem agradável às expensas públicas. Mas devem ser homens que não contam a vida por preciosa, contanto que cumpram com alegria a carreira e o ministério que rece­beram do Senhor (veja At 20.24); homens que se contentem com o puro amor por Cristo para estarem "a toda hora em perigo". Não só têm de viver como mártires, mas talvez morrer como mártires; o antigo provérbio dos cristãos primitivos deve não apenas ser conhecido, mas reavivado; "O sangue dos mártires é a semente da Igreja". Eles devem ser tão mortos para si mesmos quanto se não existissem. Eles precisam estar completamente crucificados com Cristo. Em suma, antes de em­barcarem na obra, eles têm de aprender a "negar a si mesmos'1. Com triunfo santo, eles têm de aprender a dizer: “Adeus, minha terra querida e nativa, adeus a toda facilidade e satisfações terrenas que aí desfrutei. Bem-vindas aflição, necessidades, angústias de todo tipo; trabalhos, vigílias, jejuns, agora não tenho mais medo. Bem-vinda a vida a ser gasta com viagens freqüentes, em perigos de águas, em perigos de ladrões, em perigos dos pagãos, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar; bem-vindos cansaço e dor, fome e sede, frio e nudez; bem-vinda a própria morte, sempre que o Senhor bendito, que morreu por mim, ordenar esse sacrifício caro ao meu alcance'1. Estes são os homens que serão feitos mais que vencedores sobre todas as dificuldades que a prudência ou incredulidade humanas nos apre­sentariam para impedir o caminho.

A sabedoria humana que bem conhecemos logo se confundiria na empresa; enquanto sua pequena vela é trazida para encontrar o caminho nas trevas da noite, ela só parece acrescentar negridão e obscuridade a todas as coisas além da pequena região que seus raios alcançam. Mas quando o sol brilha, sua luz espalha-se, alcançando os objetos mais distantes, e todo caminho fica claro diante de nós.

Alguns podem recear que pouco pode ser feito, porque milagres estão em falta e o dom de línguas não mais é manifesto. Indubitavel­mente, Pedro tinha notável prova da doutrina que pregava, quando o coxo. tendo sido curado em nome do Senhor Jesus, estava saltando no templo. Porém, milagres nunca cessam quando almas são conver­tidas a Deus; nem línguas jamais cessarão enquanto a mudança mara­vilhosa feita pela graça de Deus tão ruidosamente pressagia os louvo­res do seu poder de operação de maravilhas. Que os pagãos vejam o que a graça pode fazer por um verdadeiro convertido; e não precisa­mos mais ficar desanimados por falta de milagres e línguas. Esse espí­rito de unanimidade e zelo que até aqui assistiu o trabalho é sinal feliz de que o bem será feito, enquanto a torrente flui com tamanha rapidez para a concretização de tão bom desígnio. Eu não sairia pelo mundo, senão ao lado do Senhor nesta ocasião. "Amaldiçoai a Meroz, diz o Anjo do Senhor; acremente amaldiçoai os seus moradores, por­quanto não vieram em socorro do Senhor, em socorro do Senhor, com os valorosos" (Jz 5.23). Não, meus irmãos, a providência de Deus ordena que nos empenhemos por sua glória. Não há que duvidar que dificuldades existem; e oração, prudência e zelo santo em abundân­cia serão necessários para administrar o trabalho. Mas Deus pode prover tudo o que é necessário para dar prosseguimento à sua pró­pria obra à sua maneira; e não temos de fazer nada, a não ser seguir à medida que Ele condescende em conduzir. Graças sejam dadas a Deus pela unanimidade e benevolência que têm subsistido entre nós. Que sejamos encontrados firmes, inabaláveis, sempre abundantes na obra do Senhor, posto que estamos seguros que nosso trabalho não é em vão no Senhor.

 

rowland-hill

 

 

Prateleira

Este é o homem a quem olharei...

0-este-e-o-homem-a-quem-olharei

"Treme da minha palavra...", Isaías 66:1-2

Como isto te parece? O Altíssimo, busca atentamente algo nos homens, algo cujo valor transcende as iguarias dos príncipes desta terra.