O Missionário Cristão

missionario-cristao2COMO tem sido habitual na separação de um missionário, depois de recomendá-lo solenemente a Deus pela oração, farei um pequeno discurso. De acordo com o costume, não talvez impróprio ou pouco louvável, pedirei sua atenção a alguns conselhos. Procurarei evitar cair no âm­bito das instruções regulares, as quais nem me julgo à altura, nem considerarei necessárias, visto que em sua chegada à índia você rece­berá de seu venerável parente, o Dr. William Carey, instrução mais ampla e apropriada que esteja em meu poder comunicar.

Quando foram enviados os primeiros missionários que visitaram estas regiões ocidentais sua separação foi acompanhada de oração e jejum; de onde deduzimos que a súplica ardente deve formar a carac­terística distintiva nos exercícios apropriados a estas ocasiões.

Mais que qualquer demonstração de talento, por mais esplêndida que seja, a efusão do espírito de oração na Igreja de Cristo é õ mais seguro penhor de sucesso no estabelecimento de missões. Como não há empreendimento mais completamente espiritual em sua natureza, nem cujo sucesso é mais imediatamente dependente de Deus do que o empreendimento em que você está entrando, a ninguém a ajuda espiritual é mais necessária, a qual é conferida principalmente pelas orações dos crentes.

"Apartai-me", disse o Espírito Santo aos discípulos reunidos em Antioquia, ''apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado" (At 13-2). Quando o onisciente Investigador de cora­ções separa um ministro cristão dos seus irmãos e o nomeia para uma obra distinta, implica a percepção prévia de certas qualificações, ge­ralmente não possuídas, para seu desempenho bem-sucedido. Pois ainda que ninguém possa dar o crescimento senão Deus, grande par­te de sua sabedoria é encontrada na seleção de instrumentos adequa­dos para o seu propósito. A primeira e mais essencial qualificação para um missionário é uma decidida predileção pelo ofício; não o efeito de um súbito impulso, mas de uma profunda e séria considera­ção; uma predileção fortalecida e amadurecida por deliberada consideração do sacrifício necessário. Cada pessoa tem sua chamada for­mal; e enquanto a maior parte dos mestres cristãos está perfeitamente satisfeita em tentar fazer todo o bem que puder em sua terra nativa, há outros de caráter mais empreendedor, inflamados com o propósito santo de levar as Boas Novas além das fronteiras da cristandade; como o grande apóstolo dos gentios, que estava determinado a não cons­truir sobre o fundamento de outrem, mas, se possível, pregar Cristo em regiões onde seu nome não era conhecido. As circunstâncias que contribuem para tal resolução são diversas, freqüentemente muito sutis e complicadas para admitir uma análise distinta: um ardor cons­titucional de mente, uma negligência natural das dificuldades e peri­gos, uma impaciência de estar limitado pelas finas redes dos deveres habituais, junto com muitas associações e impressões acidentais, po­dem se combinar para formar um espírito missionário. Nem é neces­sário investigar tão minuciosamente as causas que levaram a certa determinação, como a legitimidade do objetivo e a pureza do motivo.

Adoramos a Fonte prolífica de todo o bem na variedade e discri­minação dos seus dons, pelos quais Ele dá um caráter separado e distribui uma esfera distinta de operação aos princípios gerais e es­senciais que formam o cristão e o ministro.

"E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo" (Ef 4.11,12).

A próxima qualificação, cuja necessidade tenho de me permitir lembrá-lo, é a devoção individual, sem cujo grau não é possível ser cristão, muito menos para propósitos úteis ser ministro, muito menos ainda missionário. Ao decidir deixar seu país de origem e renunciar suas mais estreitas relações com pequena expectativa de vê-los nova­mente na carne, você deu indicações peremptórias deste espírito. Nem para uma mente como a sua, apuradamente viva para as sensibi­lidades da natureza e amizade, pode o sacrifício que você já fez ser julgado insignificante. Mas como ainda não é possível conjeturar a extensão das privações e provas às quais, na busca de seu objetivo, você pode ser exposto, sua situação não é diferente daquela enfren­tada por Abraão, que, sendo ordenado a deixar o próprio país e a casa do pai, saiu sem saber para onde ia. Ao entrar num cenário nunca antes vivido, onde podem surgir dificuldades para exercitar sua paciência e fortaleza, das quais você pode formar senão concep­ção muito inadequada, você fará bem em contemplar o exemplo e meditar nas palavras do apóstolo Paulo em circunstâncias não muito diferentes:

"E, agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusa­lém, não sabendo o que lá me há de acontecer, senão o que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulaçòes. Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus" (At 20.22-24).

A próxima qualificação necessária para um mestre do Cristianis­mo entre pagãos é o espírito de fé; não meramente a profunda con­vicção da verdade que é essencial a um cristão, mas a persuasão inabalável das promessas de Deus para o triunfo e amplificação do seu Reino, que é suficiente para denominar seu possuidor como um herói da fé. É impossível que a mente de um missionário fique muito impressionada com a beleza, glória e grandeza do Reino de Cristo à medida que é revelado nos oráculos do Antigo e Novo Testamentos; ou com a certeza do cumprimento final desses oráculos, fundamenta­dos na fidelidade e onipotência do seu Autor. Sua atenção deve ser especialmente dirigida a essas partes da Escritura, nas quais o Espírito Santo emprega e exaure a força e esplendor totais da inspiração na descrição do futuro Reino do Messias. Isto se dará juntamente com o espetáculo surpreendente de dignidade, pureza e paz que sua Igreja exibirá quando, tendo a glória de Deus, seus limites serão proporcio­nais aos do globo habitável; quando todo objeto no qual o olho pou­sar lembrará ao espectador o começo de uma nova era na qual o Tabernáculo de Deus está com os homens, e Ele habita entre eles. Seu espírito deve estar saturado com a doçura e temor que tais ante­cipações infalivelmente produzem, de onde crescerá um desprezo generoso do mundo e um ardor que toca as raias da impaciência a ser empregada, ainda que na esfera mais humilde, como o instrumento de aceleração de tal período. Comparado com este destino em reser­va aos filhos dos homens, comparado com esta glória, invisível no momento e escondida atrás das nuvens que envolvem este cenário escuro e turbulento, o dia mais luminoso que já brilhou no mundo, é meia-noite, e os esplendores mais sublimes que a investiram, a som­bra da morte.

Independente destas garantias, a idéia de converter nações pagas à fé crista tem de parecer quimérica. O empenho em persuadi-las a renunciar a velha maneira de pensar, confirmada por hábitos, por exemplos, por interesses, e adotar um sistema novo de opiniões e sentimentos e entrar num novo curso de vida, sempre será julgado pelos sábios deste mundo como impraticáveis e visionários.

"Passai às ilhas de Quitim e vede", disse o Senhor, pela boca de Jeremias, "e enviai a Quedar, e atentai bem, e vede se sucedeu coisa semelhante. Houve alguma nação que trocasse os seus deuses, posto não serem deuses?" (Jr 2.10,11)

Pois uma nação mudar seus deuses é descrito pela autoridade mais alta como um evento quase inigualável; e se é tão difícil induzi-los a mudar o hábito da idolatria, quanto mais persu­adi-los a abandoná-la completamente! A idolatria não deve ser enca­rada como mero erro especulativo concernente ao objeto da adora­ção, de pouca ou nenhuma eficácia prática. Seu controle sobre a mente de uma criatura caída é muito tenaz, sua operação mais exten­sa. É uma instituição corrupta e prática, envolvendo um sistema intei­ro de sentimentos e costumes que perfeitamente molda e transforma seus devotos. Modifica a natureza humana em cada aspecto sob o qual pode ser contemplado, sendo intimamente misturado e incorpo­rado em todas as percepções do bem e do mal, com todas as suas debilidades, paixões e medos.

Visto que é fácil descer de uma elevação a qual é difícil subir, cair da adoração do Ser supremo à adoração de ídolos não demanda es­forço. A idolatria é arraigada em grande parte nas corrupções, e fortalecida pela fraqueza da natureza humana. Por conseguinte, des­cobrimos que todas as nações foram afundando nela em sucessão, muitas vezes em oposição às representações mais violentas de profe­tas inspirados. Não temos exemplo na história de uma única cidade. família ou indivíduo que a renunciou pela mera operação da razão sem auxílio; tal é a propensão fatal do gênero humano a essa mons­truosidade. É o véu da cobertura, lançado sobre toda a carne, que nada senão a fulgência da revelação penetra. A verdadeira religião satisfaz e aumenta a razão, mas milita contra as inclinações dos ho­mens. Apoiando-se em algumas verdades sublimes, dirigidas à compreensão e consciência, proporcionando algumas imagens distintas à fantasia e nenhuma indulgência às paixões, só pode ser plantada e preservada por uma emanação ininterrupta do seu Autor divino, de cuja espiritualidade e elevação participa em tão grande parte.

Permita-me lembrá-lo da necessidade absoluta de cultivar um tem­peramento moderado, conciliatório e afetuoso no desempenho do seu ofício. Se fosse perguntado a um espectador desinteressado, de­pois de leitura cuidadosa do Novo Testamento, o que ele concebe ser sua característica distinguidora, ele não hesitaria em responder que é o maravilhoso espírito de filantropia. Trata-se de comentário perpé­tuo sobre aquele aforismo sublime: 'Deus é amor". Como a religião crista c a demonstração da misericórdia incompreensível de Deus para com uma raça culpada, assim é distribuída numa maneira perfei­tamente compatível com sua natureza; e o livro que a contém está repleto de tais investidas inalteradas de ternura e bondade, que não é encontrado em nenhum outro volume. O espírito benigno do Evan­gelho se infundiu no peito de seus primeiros missionários. No após­tolo Paulo, por exemplo, vemos a resolução mais heróica, a superio­ridade mais sublime a todos os métodos de intimidação e perigo, um espírito que surgiu com as dificuldades e exultou em meio às mais terríveis perseguições. Quando olhamos mais detidamente em seu caráter e investigamos os motivos, percebemos que era sua fixação pelo gênero humano que o inspirou com esta intrepidez e o instigou a conflitos mais dolorosos e árduos que os devotos da glória jamais sustentaram. Quem teria suposto ser possível que o mesmo peito abrigasse tanta energia e tanta brandura? Ele que mudou a face do mundo com sua pregação e. quando prisioneiro, fez seu juiz tremer no tribunal, podia se abaixar para abraçar um escravo fugitivo e em­pregar o tratamento mais primoroso para efetuar a reconciliação com seu senhor?

A conversão de Onésimo proporciona-lhe uma alegria como os que:

"se alegram na ceifa e como exultam quando se repartem os despojos" (Is 9.3).

Quando os interesses espirituais do gênero huma­no estavam em vista, nenhuma dificuldade era tão formidável quanto a demover sua resolução, nenhum detalhe tão insignificante quanto a escapar de ser por ele notado. Para a inflexibilidade extrema do prin­cípio, ele juntou a condescendência mais gentil com a fraqueza humana e se tornou tudo para todos os homens para que ganhasse alguns: aos judeus, ele se tornou como judeu, para ganhar os judeus; aos que estavam sem lei, como se estivesse sem lei (veja 1 Co 9.20), adaptando em todas as ocasiões sua forma de tratar o caráter e a disposição daqueles com quem conversava. Era o amor de Cristo e das almas que produzia e harmonizava essas aparentes discordâncias.

A disposição afetuosa e conciliatória que temos imposto deve ser combinada com a prudência e o estudo da diligente natureza humana, o que você achará absolutamente necessário para conduzi-lo através dos caminhos obscuros e não trilhados. O apóstolo Paulo freqüente­mente lembra os tessalonicenses o modo como chegou até eles. Na primeira vez em que o Evangelho é apresentado entre um povo, é de grande importância que todo passo seja bem avaliado, que nada seja feito com precipitação, ofensa ou indecoro; mas toda precaução em­pregada, consistente com a simplicidade religiosa, desarma o precon­ceito e ganha o respeito. Não há nada que cause mais admiração na conduta dos primeiros ministros do Evangelho que o decoro primoro­so com que eles se conduziam nas situações mais delicadas. O zelo era isento de indignidade, da precaução, de timidez ou astúcia. No começo de todo empreendimento grande e perigoso, as primeiras medidas são normalmente decisivas, pelo menos nas instâncias em que o sucesso é dependente, sob a orientação de Deus e da cooperação voluntária do gênero humano. Um único ato de imprudência é suficiente para arrui­nar o empreendimento de um missionário, o que, tratando-se de um ministro relapso, dificilmente seria sentido. O melhor método de se evitar erros neste particular é esforçar-se em adquirir uma medida tão grande quanto possível da graça do Espírito, para ser saturado profun­damente com a sabedoria do alto. Nada sutil ou requintado deve entrar nas visões de um missionário cristão. Que ele sempre continue a elevar seus princípios e a purificar seus motivos. Que ele se vista com a hu­mildade, atue em todas as ocasiões com amor a Deus e à alma dos homens, e seu caráter não deixará de ser marcado com um decoro e beleza que em última instância imporão estima universal. Estes foram os únicos estratagemas que Schwartz, no Oriente, e Brainerd, no Oci­dente, condescenderam cultivar.

Existem muitos fatores inerentes ao ministério de um missionário que por si só servem para mantê-lo desperto e atento a seus deveres.

Exige-se que ele explore caminhos novos, e, deixando os passos do rebanho, saia em busca da ovelha perdida, em qualquer montanha por onde esteja vagando ou em qualquer vale onde tenha-se escondi­do. Ele tem de estar preparado para encontrar preconceito e erro em formas estranhas e desacostumadas, localizar as aberrações da razão e as divergências da retidão, através de todos os labirintos diversifica­dos da superstição e idolatria. Ele está engajado numa série de opera­ções ofensivas; ele está no campo de batalha, brandindo "as armas... [que] não são carnais, mas, sim, poderosas em Deus, para destruição das fortalezas" (2 Co 10.4). Quando não em ação, ele ainda está acam­pado no país de um inimigo onde nada pode lhe garantir as aquisi­ções ou preservá-lo da surpresa, senão a incessante vigilância. O exí­lio voluntário de seu país nativo, ao qual ele se submete, é suficiente para fazê-lo lembrar continuamente de sua importante embaixada e induzir uma solicitude, a fim de que tantos sacrifícios não sejam feitos em vão, nem tantas privações sofridas inutilmente. Ele segura a lâm­pada da instrução aos que se sentam nas trevas e na sombra da mor­te; e enquanto há uma partícula de ignorância não expelida, um úni­co preconceito não derrotado, um costume pecador ou idolatra não renunciado, sua tarefa permanece inacabada. Não lhe é bastante, em determinado dia. falar a uma audiência sobre os assuntos da eternida­de. Ele tem de ensinar de casa em casa, e estar pronto a tempo e fora de tempo, abraçando toda oportunidade que se oferece para procla­mar os princípios de uma nova religião, como também:

"confirmando as almas dos discípulos'*. Ele tem de se considerar como a boca e intérprete da Sabedoria que "clama de fora; pelas ruas levanta a sua voz. Nas encruzilhadas, no meio dos tumultos, clama; às entradas das portas e na cidade profere as suas palavras" (Pv 1.20,21).

Fortaleça-se na graça que há no Senhor Jesus. Entre as nações que será o cenário das suas obras futuras, você testemunhará um estado de coisas essencialmente diferente do que prevalece aqui, onde o nome de Cristo é defendido com reverência, as principais doutrinas da sua religião especulativamente reconhecidas e os institutos de ado­ração amplamente estendidos e difundidos. O fermento da devoção cristã se espalhou em direções inumeráveis, modificou a opinião pú­blica, melhorou o estado da sociedade e deu nascimento a muitas instituições admiráveis desconhecidas por países pagãos. A autoridade do Salvador é reconhecida, seus mandamentos em algumas instân­cias obedecidos e as afrontas da impiedade contidas por lei, por cos­tume e, acima de tudo, pela oposição silenciosa da devoção em seus adeptos sinceros.

Na índia, Satanás mantém um império quase inconteste, e os po deres das trevas, seguros de seu domínio, orgia e divertimento a seu bel-prazer, divertindo-se com a miséria dos seus súditos, os quais eles perturbam incessantemente com esperanças ilusórias e terrores fan­tásticos, levando-os cativos à sua vontade, enquanto poucos esforços têm sido feitos para depô-los de sua autoridade usurpada. Invasões parciais têm sido empreendidas e uns poucos cativos libertados, mas a força e sustentáculo do império permanecem intactos, e essa escu­ridão densa e palpável que a envolve mal sentiu a impressão de al­guns raios fracos e difusos. Na índia, você testemunhará a predomi­nância de um sistema que prove a adoração de muitos deuses e de muitos senhores, ao mesmo tempo que exclui a adoração do Ser supremo, legitima a crueldade, a poligamia e a cobiça, humilha o padrão moral, oprime com cerimônias os privados de instrução e não sugere esperança sólida de felicidade além do sepulcro.

Você testemunhará com indignação que aliança monstaiosa há entre a impureza e a devoção, a obscenidade e a religião, que carac­terizam a idolatria popular de todas as nações e que, em oposição ao sofisma paliativo dos infiéis, suficientemente evidencia ser o que as Escrituras afirmam — a adoração de demônios, não de Deus.

Quando consideramos as causas morais que operam nos agentes livres, não ficamos surpresos ao descobrir que os efeitos são menos uniformes que aqueles resultantes da ação de poderes materiais e físicos, c que a mente humana é suscetível de impressões opostas dos mesmos objetos.

Em indivíduos em que não foram estabelecidas as evidências da religião revelada, nem sentida sua eficácia, uma residência num país pagào tem um efeito mais pernicioso e amadurece a irreligião latente em aberta impiedade. A ausência de instituições cristas e exemplos cristãos os deixam livres para satisfazer as inclinações sensuais sem controle, e a contemplação familiar de maneiras e costumes pagãos gradualmente exaure todo rastro e vestígio da religião na qual foram educados, e os incentiva a considerá-la ã luz de uma superstição local. Fies não são mais convertidos à fé brâmane do que preferi-la à sua própria; ou seja. eles preferem a religião que podem menospre­zar com impunidade àquela que lhes aflige a consciência, que os deixa livres ao que os detém. Como sempre tem sido a linguagem secreta do coração: "Fazer com que o Santo de Israel se extinga do nosso meio", na ausência de Deus. de seus institutos e adoração, eles acham um elemento conveniente, nem estão absolutamente descon­tentes em perceber o vazio ser cheio de inumeráveis formas e quime­ras fantásticas; porque eles contemplam a religião com grande com­postura, contanto que ela seja suficientemente ridícula.

Estou persuadido de que você verá a condição de milhões que estão envolvidos nas sombras da idolatria, originalmente formados à imagem de Deus, hoje totalmente alienados do grande Pai e deposi­tando a confiança em coisas que de nada aproveitam, com emoções diferentes, e estará ansioso para chamá-los de volta ao Bispo e Pastor das almas. Em vez de considerar a espécie mais detestável de idolatria como tantas maneiras diferentes de adorar o Ser supremo, agradável ao jargão dos infiéis, você não vacilará em considerá-las uma tentati­va incrédula de compartilhar suas honras incomunicáveis; como a compor essa imagem de ciúme que ele está empenhado a ferir, con­fundir e destruir. Quando você comparar a incoerência, extravagância e absurdidade que permeiam os sistemas do politeísmo com as ver­dades simples e sublimes do Evangelho, o resultado será um aumen­to da ligação a esse mistério da santidade. Quando você observar a ansiedade do devoto hindu em obter o perdão de pecados, e os incrí­veis labores e sofrimentos a que ele alegremente se submete para acalmar as perturbações da consciência, a doutrina da cruz terá muito mais de sua estima, e você almejará uma oportunidade de gritar aos ouvidos dele:

"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29).

Quando você testemunhar a imolação de mulheres nas pi­lhas funerárias dos maridos e o tratamento bárbaro de pais idosos deixados pelos filhos para morrerem nas margens do rio Ganges, você reconhecerá as pegadas daquele que era desde o princípio um assassino, e ficará impaciente em comunicar as suaves e benevolen­tes premissas do Evangelho. Quando você vir uma imensa população presa em correntes por aquela instituição detestável — a casta —, como também curvada sob o peso intolerável das superstições brâmanes, você desejará dar a liberdade que Cristo confere:

"Onde não há grego nem judeu, [...] bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos" (Cl 3.11).

Ao recomendar os princípios do Cristianismo a uma nação paga, coloque sua instrução na forma de testemunho. Que seja, com respei­to ao modo de exibi-lo, embora não ao espírito do mestre, dogmático. Testemunhe o arrependimento para com Deus, e a fé em nosso Se­nhor Jesus Cristo. Seu testemunho pode seguir o modelo socrático, sem, no entanto, aquiescer às idéias do pensador grego, que perma­neceu à luz da natureza para se expressar com difidência e afirmar não ter poupado esforços em atuar no caráter de filósofo, em outras palavras, um inquiridor diligente da verdade. Porém, quer ele tenha filosofado corretamente, ou atingido o objetivo de suas investigações, ele não soube, mas deixou para ser verificado naquele mundo no qual ele estava entrando. Nele, tais indicações de desconfiança mo­desta eram graciosas e patéticas, mas pouco conviriam ao discípulo da revelação ou ao ministro cristão, que é autorizado a dizer junto com o apóstolo João:

"Sabemos que somos de Deus e que todo o mundo está no maligno. E sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é. em seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo 5.19,20).

Depois de fazê-los lembrar o estado de criaturas culpadas e con­taminadas, o que as cerimônias de sua religião os ensinam a confes­sar, apresente aos habitantes da índia a cruz de Cristo como único refúgio. Familiarize-os com sua encarnação, seu caráter como o Filho de Deus e o Filho do Homem, seus ofícios e o desígnio da sua mani­festação; não com o ar de qualquer debatedor deste mundo, mas daquele que está consciente de si mesmo por possuir o medicamento da vida, o tesouro da imortalidade, que está ansioso de dar aos ho­mens culpados. Insista sem medo sobre a futilidade e vaidade de todos os métodos humanos de expiação, sobre a impotência dos ído­los e sobre o mandamento de Deus para:

"todos os homens, em todo lugar, que se arrependam, porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo" (At 17.30,31).

Mostre os sofri­mentos de Cristo como alguém que foi testemunha ocular desses so­frimentos, e exponha o sangue, o sangue precioso da expiação, como se estivesse escorrendo da cruz. Trata-se de excelência peculiar do Evangelho, que, em sua adaptação maravilhosa ao estado e condição do gênero humano como criaturas caídas, traz as marcas intrínsecas de sua divindade, sendo apoiado não menos por evidências internas do que externas. Por grandioso apelo a consciência, por descrição fiel do homem na sua grandeza e na sua fraqueza, em sua capacidade original à felicidade e sua atual miséria e culpa, o Evangelho apresen­ta essa extensão de sua evidência em toda a força. Em todas as ocasi­ões, sirva-se das características do Cristianismo que o torna interes­sante; e despertando os medos e estimulando as esperanças dos ou­vintes, esforce-se por aniquilar todos os outros objetivos, e faça-o parecer o que realmente é: a pérola de grande preço, o bálsamo soberano, a cura de todas as doenças, o antídoto da morte, o precur­sor da imortalidade. Em tal ministério, não tenha medo de liberar todo o ardor de sua alma, para pôr em ação toda emoção e toda faculdade que podem exaltá-la ou adorná-la. Você encontrará amplo escopo para toda a força e ternura; e se você for chamado para derra­mar a vida como libação na oferta dos gentios, esta só será a maior ocasião de exultação e regozijo.

A fim de se qualificar para o desempenho destes deveres, é extre­mamente necessário que você se familiarize com as doutrinas gerais do Cristianismo em sua plena extensão; mas não será preciso nem conveniente iniciar seus convertidos nas controvérsias que, por longo curso de tempo, se desenvolveram entre os cristãos. Empreenda ad­quirir um conhecimento tão extenso e perfeito quanto possível das ordens da inspiração e, estabelecendo seus ouvintes nestas, impeça a entrada do erro, em vez de rebatê-lo. Com base em sua fé e prática, sempre esteja preparado para responder toda inquirição despretensi­osa; e que você seja mais hábil em entrar nas dificuldades deles, e, antecipando as objeções, coloque-se tanto quanto possível na situa­ção daqueles a quem você é chamado para instruir. Quando conside­ramos as prováveis conseqüências permanentes que são o resultado das primeiras impressões na mente dos pagãos, as poucas vantagens que eles possuem para a discussão religiosa e a confiança extrema em que provavelmente repousam nos seus guias espirituais, você deve estar cônscio de quão importante é plantar inteiramente a semente Deita. Suas representações defeituosas da verdade não serão logo remediadas, nem os erros que você planta extirpados, considerando que encontramos sociedades de cristãos nessas regiões do mundo, onde abundam discussão e controvérsia, retenha de geração em gera­ção as doutrinas distintivas dos seus líderes. Na formação do plano e colocação dos fundamentos de um edifício que é proposto durar para sempre, é desejável que nenhum material seja admitido senão o que é sólido e durável, e nenhum ornamento colocado, a não ser o que é puro e nobre. Como seria muito esperar que você tenha sucesso per­feitamente em partilhar a mente de Cristo, seja-me permitido aconse­lhar que você se apóie antes no lado do erro do que no excesso, e em pontos de magnitude inferior, omita o que é verdadeiro em vez de apontar o que é duvidoso. A influência da religião no coração não depende da multiplicidade, mas da qualidade de seus objetivos.

A multiplicação desnecessária de artigos de fé dá um caráter de pequenez ao Cristianismo, e tende em certo grau a imprimir um cará­ter semelhante em seus adeptos. A grandeza e eficácia do Evangelho não são o resultado de uma imensa acumulação de pequenas coisas, mas da demonstração poderosa de algumas grandes.

Entre os benefícios indiretos que esperamos surgir das missões, permita-nos antecipar uma forma mais pura. simples e apostólica de apresentar o Evangelho.

A situação de um missionário retirado da cena de debate e con­trovérsia, que tem continuamente diante dos olhos os objetivos que se apresentaram à atenção dos apóstolos, é favorável à emancipação de todo tipo de preconceito e à aquisição de concepções justas e ampliadas do Cristianismo. Sua parte será entrar nas mesmas alas deste grande hospital, e prescrever para a mesma classe de pacientes que primeiramente experimentaram o poder saudável e renovador do Evangelho. Sir William Jones supõe que os deuses adorados atual­mente na índia são os mesmos, com nomes diferentes, dos que com­partilhavam a adoração da Itália e Grécia quando o Evangelho foi publicado pela primeira vez nessas regiões; de forma que você será testemunha ocular dos mesmos males e monstruosidades que então prevaleciam no hemisfério ocidental, e os quais a espada do Espírito tão efetivamente subjugou. Você estará em grande vantagem ao re­montar aos primeiros princípios, traçar o fluxo para a cabeça e fonte, tendo de contemplar incessantemente esse estado de coisas em visão moral, da qual cada página da Escritura assume a existência, mas da qual os habitantes da Europa não têm experiência de vida. Por conse­guinte, é com grande satisfação que observei a harmonia da doutrina, a identidade da instrução, que permeavam o ministério de missioná­rios protestantes que foram empregados sob o patrocínio de diferen­tes denominações cristãs.

Poucas coisas tendem a ampliar a mente mais poderosamente que relacionar-se com grandes objetivos e ocupar-se de grandes in­quirições. Que o objetivo que você está buscando está intitulado na­quele apelativo, não será questionado por aquele que reflete nas infi­nitas vantagens derivadas do Cristianismo, a cada nação e região onde este predominou em sua pureza, e que a superioridade prodigiosa que a Europa possui sobre a Ásia e a África será designada principal­mente a esta causa. É a posse de uma religião que compreende as sementes da melhoria infinita, que mantém luta incessante com tudo o que c bárbaro, egoísta ou inumano, que, desvelando a futuridade, reveste a moralidade com a sanção de uma lei divina e harmoniza a utilidade e a virtude em cada combinação de eventos e em cada fase da existência; uma religião que, dispondo as concepções mais justas e sublimes da deidade e das relações morais do homem, de imediato deu à luz a mais alta especulação e a mais pueril humildade e uniu os habitantes do globo numa família e nos laços de uma salvação co­mum. É esta religião que, elevando-se sobre nós como um sol me­lhor, avivou a vegetação moral e encheu a Europa com talentos, virtu­des e façanhas que, apesar de suas desvantagens físicas, transformou-a num paraíso, a delícia e maravilha do mundo. Um esforço em pro­pagar esta religião entre os nativos da índia talvez possa ser estigma­tizado como visionário e romântico; mas seria degradar a razão entrar no rol da controvérsia com os que a negariam ser grande e nobre.

Na opinião dos mais esclarecidos estadistas, em comparação ao ponto de vista de um ministro cristão, há uma pequenez e limitação que não devem ser imputadas como imperfeição moral, num caso, nem como mérito pessoal, em outro; a diferença que surge é pura­mente da disparidade nos assuntos nos quais eles especulam, respec­tivamente. Se em sua chegada à índia alguém lhe perguntar, como muito provavelmente acontecerá, o que há no Cristianismo que o torna tão inestimável aos seus olhos, que você julgou próprio empreender tão longa, perigosa e dispendiosa viagem, com a finalidade de comparti-lo — você responderá sem hesitação: é o poder de Deus para a salvação; nenhuma opinião menos que essa ou a persuasão dela por qualquer propósito inferior, que a capacita a produzir os efeitos moralizantes e civilizadores é tão eficazmente adaptado a rea­lizar. O Cristianismo civilizará, é verdade, mas só quando lhe é permi­tido desenvolver as energias pelas quais santifica. O Cristianismo inconcebivelmente melhorará a atual condição do ser — quem duvida disso? Sua prevalência universal, não no nome mas na realidade, con­verterá este mundo num estado semi-paradisíaco; mas é somente en­quanto lhe é permitido preparar seus habitantes para um mundo melhor. Que lhe seja exortado a esquecer sua origem e destino celestiais, esquecer que o Cristianismo "veio de Deus e volta para Deus"; e se é empregado pelo astuto e empreendedor como instru­mento para estabelecer um império e domínio espirituais sobre o gênero humano, ou pelo filantropo, como meio de promover sua civilização e desenvolvimento, ele se ressente da indignidade revol­tante, bate as asas e levanta vôo, não deixando nada mais que uma desprezível e santarrona hipocrisia.

Pregue-lhes, meu querido irmão, tendo sempre em mente este caráter e meta. Pregue com uma perpétua visão à eternidade, e com a simplicidade e afeto com que você trataria seus mais queridos ami­gos, caso estivessem eles reunidos em volta do seu leito de morte. Enquanto outros são ambiciosos cm formar o cidadão da terra, seja sua ambição treiná-lo para o céu; para levantar o Templo de Deus dentre as desolações antigas; para contribuir com sua parte para a formação e perfeição dessa sociedade eterna que florescerá em pure­za c ordem invioláveis, enquanto toda associação humana será dis­solvida e os príncipes deste mundo ficarão frustrados. Na busca des­tes objetivos, que seja sua ambição andar nas pisadas de Brainerd e de Schwartz; posso acrescentar, de seu parente excelente — William Carey —, com quem estamos contentes em perceber que você possui uma congenialidade de caráter, não menos que uma afinidade de sangue.

Porém, se você tiver sucesso além de sua extrema esperança, não conte escapar do ridículo dos descrentes ou da censura do mundo, mas contente-se em sustentar esse tipo de reputação e correr esse tipo de carreira, invariavelmente atribuído ao missionário cristão; em que, conforme a experiência do apóstolo Paulo, obscuridade e noto­riedade, admiração e desprezo, tristezas e consolações, as amizades mais ternas e a oposição mais violenta, estão intercambiavelmente entrosados.

Mas quaisquer que sejam os sentimentos do mundo, concernentes aos quais você não favorecerá solicitude excessiva, o seu nome será precioso na índia, a sua memória querida para multidões que reve­renciarão em você o instrumento da salvação eterna. E quanto mais satisfação advirá da consciência desse fato do que dos mais elogiosos aplausos humanos, suas próprias reflexões determinarão. Nesse mo­mento terrível quando você for chamado para dizer um adeus final ao mundo e olhar para a eternidade; quando as esperanças, medos e agitações que os corpos celestes terão ocasionado se aquietarem como um sonho febril ou uma visão da noite, a certeza de pertencer ao número dos salvos será a única consolação; e quando a isso for agre­gada a convicção de ter contribuído para aumentar esse número, sua alegria será completa. Você estará ciente de ter conferido um benefí­cio aos seus semelhantes, sem saber precisamente o quê, mas de tal natureza que demandará toda a iluminação da eternidade para medir suas dimensões e averiguar seu valor. Tendo seguido a Cristo na rege­neração, nos trabalhos preparatórios que acompanham a renovação do gênero humano, você subirá a uma posição elevada num mundo onde a porção mais escassa é "um peso eterno de glória mui excelen­te" (2 Co 4.17) e um lugar distinto lhe será designado naquele firmamento imutável, onde os que a muitos ensinam a justiça refulgirão como as estrelas, sempre e eternamente" (Dn 12.3).

 

robert-hall